Mandioca: O Maranhão pode ser referência nacional.
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| Comercialização mandioca em Tufilândia-MA |
Nas últimas semanas, li três reportagens, muito interessantes, que tratavam sobre a produção de mandioca. Precisamente, sobre a valorização desse produto no mercado brasileiro. Vocês podem acessar as reportagens através dos links que estão nos títulos em destaque.
As duas primeiras, uma produzida pela Associação Brasileira de Produtores de Amido de Mandioca – ABAM, “Valorizada, mandioca atinge melhor rentabilidade que a soja”, e a outra da revista Globo Rural, “Preço da mandioca bate recorde e pode subir ainda mais. Entenda”, tratam da produção de mandioca e suas tendências, tendo como referência o estado do Paraná. Essas reportagens apresentam resultados de estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – CEPEA.
O Paraná é um grande produtor de mandioca e detém 70% do parque fabril da produção de fécula. Por isso sua importância como referência para estudo da cultura.
Na primeira reportagem, destaca-se a grande rentabilidade da cultura da mandioca no ano de 2021, quando comparado os custos de produção com o da soja.

A segunda reportagem, de publicação mais recente, confirma a tendência de valorização da mandioca nesses meses iniciais de 2022.
A valorização no preço da mandioca, está atrelada a redução de área plantada no ano de 2020, pois houve substituição do cultivo de mandioca por outras atividades mais rentáveis, à época (principalmente boi e grãos). Fatores como custos elevados com mão de obra e insumos contribuíram para esta situação.
Outra causa associada é a queda na produtividade que vem acontecendo ao longo dos anos, ocasionada, principalmente, por fatores climáticos. Por fim, cita-se também como causa da valorização, o aumento nas exportações – caso do Paraguai que passou de exportador para importador.
De acordo com o pesquisador do CEPEA, Fábio Isaias Felipe, há uma tendência de continuidade da redução de área cultivada no Paraná, para este ano, mantendo-se a tendência da alta do preço da mandioca.
A terceira reportagem, “A mandioca, a guerra e a segurança alimentar do Brasil e do mundo”, publicada no site “Bonifácio”, destaca a importância da cultura para a alimentação. E faz um destaque especial para sua importância em tempos de guerra. Creio que pelo fato da guerra entre Rússia e Ucrânia, em andamento.
Por que essa referência é importante? A Rússia e a Ucrânia, detém, juntos, 1/3 da exportação de trigo. A guerra está provocando alta no preço desta “commodity”. Muito utilizada na indústria de panificação. Basta ir à padaria para constatar que o preço do pão já aumentou.
A fécula de mandioca por ter potencial como substituto do trigo na indústria de panificação, representa uma boa estratégia de redução dos custos de produção e baratear os produtos.
Por que essa análise conjuntural é importante para o Maranhão?
Entendo que estamos diante de mais uma oportunidade para o estado se tornar um grande produtor de mandioca.
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| Cultivo de mandioca em São Pedro dos Crentes - MA |
A mandioca é amplamente cultivada em todo o território maranhense. Envolve um número expressivo de estabelecimentos agropecuários, categorizados como da agricultura familiar. Esta cultura, além da sua importância econômica, também tem sua importância social, pois é a cultura mais explorada pelas famílias em situação de pobreza no meio rural, sendo que grande parte da produção é direcionada ao alto consumo.
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| Cultivo de mandioca em Água Doce do Maranhão |
Muitos produtores ainda utilizam técnicas primitivas de cultivos não sustentáveis, que podem estar relacionadas a diminuição da eficiência produtiva da cultura ao longo dos anos, pois para o Maranhão é registrado, oficialmente, o volume de 7,6 toneladas de raiz por hectares, um valor muito baixo quando comparado com estados brasileiros.
O principal produto derivado da mandioca no Maranhão é a farinha de mesa, tipo puba. De grande produtor e consumidor, hoje o Maranhão já importa parcela significativa desse produto. Isto se comprova ao se observar as gôndolas dos supermercados das principais redes varejistas, que são abastecidas com farinhas procedentes de outros estados. Tal fato se remete à precariedade do processo de agroindustrialização. Um produto industrializado tem que atender a requisitos mínimos que garantam segurança sanitária ao consumidor final – alimento seguro. Outro fator é a informalidade na comercialização, realizada sem nenhum registro.Para que o Maranhão possa usufruir de todo seu potencial como produtor de mandioca e derivados, será necessário realizar ações de natureza estratégica e sistêmica por parte dos apoiadores da cadeia produtiva. Principalmente dos entes públicos: estadual e municipal.
Destaco as seguintes ações:
Assistência Técnica e Extensão Rural - A primeira intervenção que se deve realizar na cadeia produtiva é de ordem tecnológica. Esta deve estar relacionada a processos que gerem aumento da produtividade. Assim, a identificação e seleção de variedades mais produtivas, técnicas de cultivo que possam expressar toda potencialidade da produção, são válidas para gerarem impactos positivos no cultivo de mandioca no Maranhão. Mas não só isso. Também deve ser trabalhado a gestão do empreendimento, pois estamos tratando de “negócio rural”.
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| Capacitação de extensionista no perímetro irrigado "Tabuleiros de São Bernardo" |
Mecanização Agrícola – os tipos de máquinas e equipamentos deverão ser adequados à atividade produtiva, incluindo aqueles que favoreçam o plantio e a colheita da produção. Nos estados mais mecanizados, como é o caso do Paraná, o custo da mão de obra com a produção da mandioca é em torno de 40% do total. No Maranhão, com sistemas produtivos menos intensivos, deve estar próximo à 60%.
Agroindustrialização – precisamos urgentemente rediscutir o processo de agroindustrialização da mandioca. Não podemos mais ficar apenas na construção e entregas de agroindústrias. Temos que avançar na profissionalização da gestão desses empreendimentos – estudo de viabilidade econômica, plano de negócio, plano de marketing, entre outros. A gestão é fundamental para garantir sustentabilidade para os investimentos. A lógica é que a agroindústria atenderia a necessidade do processamento da produção existente e não o contrário. Ou seja, ela gerando a necessidade de produção, pois já se experimentou muito nessa lógica e o que temos hoje são muitas edificações abandonadas; Uma outra questão é quanto a regularidade sanitária. Muitas agroindústrias de farinha em funcionamento não atendem as normas e legislações sanitárias. Grande parte em virtude do desconhecimento desses normativos e pela dificuldade de acessos à profissionais especializados.
Comercialização – este é um ponto que temos esquecido quando tratamos da produção da mandioca, achando que, por si só, o produtor resolve. Sim, ele realmente é o maior responsável por esse processo. Mas há necessidade de se criar e fortalecer canais e ações que apoiem o processo de comercialização. Cito, como exemplos:
- Portal Virtual de Comercialização de Mandioca e seus derivados,
- Unidades de Empacotamento de Farinha – estas estrategicamente pensadas como unidades agregadoras da pequena produção industrializada.
Crédito – temos que destravar o uso do custeio agrícola para o cultivo da mandioca no estado do Maranhão. As normativas do Banco Central contidas no Manual de Crédito Rural nos dão pistas de como fazer. Mas para isso, precisamos ousar. Sair da inércia. Não podemos ser cegamente partidários do “com o tempo, tudo se resolverá”. Também acredito nisso. Só que o tempo decorrido para acontecer será muito mais longo. E até lá já estaremos em uma outra situação, totalmente diferente.




Parabéns pelo trabalho muito bom 👏👏
ResponderExcluirParabéns Artur pela excelente abordagem em relação a produção de mandioca e contextualização sobre o cenário, principalmente a situação e perspectiva para o estado do Maranhão, considerando a importância desse produto na dieta e cultura maranhense, especialmente por meio de agricultura familiar, gerando milhares de empregos diretos e renda para as famílias no campo. Nesse contexto acredito que o caminho viável aponta para a necessidade de intensificar e consolidar um plano estratégico de desenvolvimento da mandiocultura no estado, visando implementar processo de inovações tecnológicas de produção, processamento e comercialização,
ResponderExcluirfacilitação e ampliação do acesso ao crédito rural para o custeio e investimentos em infra-estrutura com vista a criar as condições estruturais de apoio ao desenvolvimento e sustentabilidade da cadeia produtiva, proporcionando melhoria de renda e qualidade de vida no meio rural.